quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Crash é o meu cão


Crash é o nome do nosso cão.
Eu e o João fomos buscá-lo ainda como uma bolinha, assim nos escolheu: foi o único da ninhada que veio atrás de nós.
Decidimos os três:" tem de ser este, queria vir connosco".
Os donos da mãe disseram-nos que era o mais meigo, mais carinhoso, mais carente de festas, cuidados, mimos...
Nasceu em 6 de Fevereiro de 2001.
Vive connosco desde a idade de um mês.
Não dormia, chorava, mudei-me para a cozinha, dormia em duas cadeiras, enrolada no robe mais quente, adormecíamos os dois, ele no meu colo, com o meu livro por cima que entretanto escorregava das minhas mãos e o cobria.
Andei extenuada uma semana, um cão a dar-me mais trabalho que um filho? A acordar de duas em duas horas? A fazer-me mudar de "quarto" para duas cadeiras na cozinha, tanto mimo... só por estarmos provisoramante num andar, por as obras ainda tardarem a finalizar, por não querer incomodar vizinhos com a choradeira dele, ou porquê?

Por tudo mas principalmente por amor!

Sempre aquela bolinha atrás de mim, proibida de entrar nos quartos, fazendo chichi e cocó, difícil educar um cão, sem fraldas...

Cresceu cresceu e foi viver para uma grande casota térmica, posta então na varanda. Cresceu, cresceu e nunca mais as obras prontas...

Ladrava, ladrava, não queria estar sozinho, chorava de contente quando nos ouvia chegar, pulava quando o meu carro estacionava.

Pulava, saltava, adorava passear.

Na praia, cachorro grande, atrevido, aproximava-se e as mães gritavam.
Queira brincar como os filhos delas.
Entrava no mar, nadava e quando chegava, sacudia-se majestoso.

Aprendeu a sentar-se, a beber comigo o café da manhã, aos meus pés, orgulhoso porque era sábado e tinha direito a entrar na marquise. Olhava-me feliz e quando era hora de cada um ir à sua vida, amuava, enrolava-se, tornava-se pesado, desobedecia, pedia mais uns mimos, umas cócegas na barriga, umas festas e enganado, às primeiras vezes, corria para o quintal a apanhar o biscoito.

Enterrava os ossos e fugia com eles na boca, desafiando, saltando muros, correndo desalmadamente, às vezes, derrapava, vinha de encontro a mim, bruto, grande, mas aquele olhar de mel, aquele pêlo dourado, aquela juba de cão leão,sedutor, desafiador... nunca o Crash me foi obediente.

Quase a morrer, arrastei-o para o carro, comia de tudo, internado uma semana no Hospital da Várzea de Sintra. O veterinário só me disse: "Só posso tratar um de cada vez"enquanto eu disfarçava o choro ao vê-lo entubado, na marquesa, e virava as costas e lavava as mãos, lavava com mais choro que água e nunca mais acabava.

Proibida de ir visitá-lo, porque"só iria desestabilizar".Ao fim de dois dias,boas notícias pelo telefone:"Temos cão, já rosna!". Fomos buscá-lo ao fim de cinco.
Esperávamos, agora, todos, no hall do hospital até se fazerem as contas.
Ausentei-me para ir à casa de banho, não gostou e chorou...não lhe bastava o João e o Sena. O enfermeiro comentou:" A este cão só falta falar!"

Entrou tão contente na carrinha, sempre altivo,sentado ao lado do dono João, no banco detrás, a ver tudo, sabia que regressava orgulhosamente a sua casa.
Recuperou da magreza e tornou-se feroz para os maus e um doce para os bons.

Não pudemos ter jardim, nem canteiros, só roseiras, picam-lhe o focinho.
Sempre se deitou onde quis e variou de sítio, terra é quente, mais fôfa que tudo.
Em dias de muita chuva:"Crash! Vai para a casota, sai da chuva!"E ele lá ia quando eu ia à janela do primeiro andar, à noite, asperamente ralhar-lhe! Reconhecia que era melhor para ele e lá se abrigava.

Adoeceu, tratou-se, adoeceu, maldito mosquito!

Brincalhão, de patas levantadas, derrubava a Cidália que lhe gritava"Na me lembas! na me lembas!
Malandro, roubou as talhadas de melão da travessa, partiu a taça de porcelana chinesa antiga quando puxou o pano!
Roía tudo ...puxava do estendal os meus óculos de nadar, o fato de banho, as meias, etc
Quando fazia patifarias, encolhia-se, parecia enfiado, comprometido, esgueirava-se e depois mais tarde, já afoito, exigia festas.Adorava companhia, limpava a tigela da ração enquanto se estendia roupa ou se lia o jornal lá fora. Adormecida ao sol e ele, ali ao lado, tranquilo,saudável, de patas dianteiras cruzadas, sempre de porte majestático, ele era um Cão, o meu cão Crash, nome dado pelo João a propósito daquela raposinha, personagem dum jogo de playstation.

O Crash foi oferta para o João.

Hoje eu estou a despedir-me do Crash,ele deve ser abatido para não sofrer.
Quem acredita nisso?

Irá descansar em paz debaixo duma oliveira,para onde todas as noites eu irei olhar, e senti-lo como sempre o senti, mal abria a cortina da janela, cá de cima,e o via a olhar para mim, fosse que horas fossem, sem fazer barulho, mas ele sabia que eu estava ali, e afagava-me com os olhos cor de mel.